FINALMENTE tenho forças para voltar a escrever para o blog, por um tempo me faltou motivação para relatar como andavam as coisas da minha vida, normalmente em momentos difíceis prefiro ficar mudo do que propagar pensamentos tristes.

Sei que você entrou para ver um texto de superação e relato sobre a prova, mas antes preciso falar algo que vai além de uma superação pessoal em uma prova de corrida.

Acho que qualquer pessoa que treina, sabe que o principal fator para pararmos de nos dedicar ao esporte é o trabalho. Temos uma vida corrida, muito trabalho, estresse, relacionamentos conturbados e desânimo. O que é mais engraçado é que ao mesmo tempo sabemos que o esporte é o fator que pode fazer nós esquecermos de tudo e encontrarmos nossa paz, cada vez mais está difícil de sair da zona de conforto para encarar o clima confuso de São Paulo, pegar chuva para correr ou encarar um sol de 40º graus.

foto-16-10-16-21-27-59

Minha vida anda numa tempestade de emoções que envolvem trabalhos, planejamento de vida e administração de tempo e dinheiro. Vivo fazem anos uma vida dupla de designer e gerador de conteúdo e muitas vezes fica difícil ter energia para os dois, principalmente quando você inventa de realizar um sonho de correr 75km no meio dessa confusão toda, onde só será possível realizar seguindo uma planilha tensa que o meu irmão Renan Viana desenvolveu para mim.

E quando você pensa que mesmo com todos os problemas você sabe que pode realizar a prova, a uma semana antes você torce na escada o tornozelo e coloca o questionamento:

SERÁ QUE O SONHO ACABOU?

Como o destino é cruel né? 6 meses de treinamento, 4 anos sonhando com a prova, encarei treinos e preparações tão intensas para em menos de uma semana colocar tudo por água a baixo. Nestas horas que vemos uma das coisas que é fundamental para nossa vida, as pessoas que estão na nossa vida para nos ajudar.

Na hora pensei em desistir, muitos amigos falaram para eu não ir e preservar minha saúde, eu também achava que seria melhor, pois vivo do meu corpo e tenho muitos anos de vida pela frente. Ao mesmo tempo ouvi muitos outros amigos me motivando, muitos deles eu havia motivado em outras circunstancias, lembrando o quanto eu havia treinando para isso.

543680_10151032429612172_1614053787_n

Neste momento tive mais uma vez a ajuda de uma pessoa que iria mudar o o final desta história, meu amigo e um dos melhores profissionais da área da educação física e fisiologia do esporte, Renan Viana, me pegou para fazer uma semana intensiva de recuperação do movimento do tornozelo.

Para quem não estava conseguindo colocar o pé no chão, me botou em condições para pelo menos agüentar largar e o que seria depois dali, só a prova iria dizer. Então assim, chegamos na prova.

Ultramaratona Maresias-Bertioga 75km

A largada do solo aconteceu as 6:15 da manha, após uma longa noite chuvosa a certeza era que esta chuva iria estar presente durante a prova. Esperei todos saírem para ir, minha meta era uma só, conseguir chegar no próximo ponto de troca.

Pela primeira vez a prova estava acontecendo no sentido contrário, normalmente terminava em Maresias, desta vez começava com a serra mais treta da prova logo como refeição de café da manhã. Fui na manha, andando sem pilhar na emoção que meus amigos que também estavam correndo a prova me passavam. Fone de ouvido e uma música calma para começa, com certeza umas músicas do Bonobo estava na tracklist de mais de 15 horas que havia feito.

A dor no tornozelo não foi mais forte do que meu foco em esquece-la e assim cheguei com calma na primeira troca, iria usar o PC para ver o Renan e a Camila, minha equipe de apoio. Não quis ninguém de bicicleta ao meu lado, gosto de correr sozinho, uso o tempo para pensar nos problemas que tenho que me resolver e nas pessoas que me ajudaram em toda a vida.

Assim foi a prova toda, a cada parada o mestre Renan metida o dedo no músculo para liberar o que estava travado. O tornozelo não doía, mas o corpo para compensar aquele lugar foi judiando dos outros. Panturrilha esquerda, direita, joelho esquerdo e depois o direito. Um a um foi travando e no km 45 cogitei parar pois senti uma dor extrema no joelho.

Nestas horas vemos como nossa mente é o pior problema nas corridas longas, os músculos doem mas com uma bela porrada ele arruma, mas e a mente? E as coisas que você se arrependeu de fazer na vida, as coisas que queria ter feito, as pessoas que machucou e as pessoas que esqueceu de amar? Os trabalhos que poderia ter se dedicado mais e aqueles que deveria não ter pego?

É difícil duelar com a mente, principalmente quando você tem quase 12 horas para isto. Nestas horas você lembra UMA A UMA as pessoas que te mandaram mensagens positivas, nestas horas você ouve o set do irmão e lembra do quanto ele se torna importante na sua vida. Você lembra dos incríveis pais que tem e do carinho que sempre deram, lembra do irmão que gostaria de ter mais próximo mas que hora em dia é a corrida que faz ele estar próximo de você.

captura-de-tela-2016-10-24-as-17-00-54

Faltando só dois trechos e já extrapolado o tempo limite da prova, sendo assim não tendo mais ninguém da organização do percurso eu me perdi. Fui para outro caminho e só percebendo 3km depois quando um carro com dois surfistas me avisam que estou indo para o caminho errado. Quem via de fora era um carro, com dois muleques dando uma informação, para mim era um mensageiro de Deus salvando minha vida, já que estava sem comunicação e com uma tempestade caindo pesada sobre minha cabeça e também na do Renan e Camila. Imagino agora a preocupação deles, na hora já tinha dado como vencedor. Havia corrido 65km, muito mais do que imaginaria que conseguiria.

Achei o último ponto de troca, decidi seguir a prova pois já tinha chego tão longe para desistir. Um senhor de quase 65 anos me convidou parar terminar junto a prova. Meu ego de juvenil falou que não, iria colocar o fone de ouvido e seguir em frente. Fiz isto.

Vinte minutos depois olho para trás e vejo o senhor logo atrás, decidi aproveitar mais uma ajuda enviada pelo plano superior, abri a oportunidade de conhecer o Senhor Batista e assim seguir os últimos 7km.

Batista, engenheiro de foquetes, estava fazendo o percurso duplicado. Já havia feito os 75km na madrugada e estava fazendo a volta, completando então 150km. Engraçado como nestas provas a idade faz com que nós sejamos que nem vinho, quanto mais velho, melhor.

Ouvi o senhor Batista assim como um aprendiz ouve seu mestre, perguntei como se alimentava, o que fez ele se apaixonar pela corrida e como ele fazia para agüentar tanta dor. Sempre vai ser a mesma história, uma pessoa que tem pela corrida a válvula de escape de todo estress que o nosso mundo oferece.

Terminei a prova com 12 horas de duração, o sonho de fazer 75km virou 77km. O relógio acabou a bateria antes de finalizar até o final e hoje eu vejo que podemos muito mais do que imaginamos. Mas que junto das pessoas que a vida nós oferece, podemos ir muito mais longe.

Agradecimento especial para a equipe da Agência Guanabara que forneceu todo o vestuário para que eu realizasse a corrida. Toda a nova linha dos lançamento da Reebok que foi a patrocinadora oficial da corrida Maresias-Bertioga.

s2